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Envelhecimento da população gera desafios e oportunidades

A transformação em andamento na sociedade, com o aumento de pessoas idosas, foi tema de encontro organizado pelo Corede Serra

  1. Publicado em 07/10/2026
Envelhecimento da população gera desafios e oportunidades

Pela primeira vez em sua história, a humanidade convive com a chamada sociedade superenvelhecida, com crescimento populacional de pessoas com mais de 80 anos, o que exigirá transformações para atender às demandas deste público. O novo momento global foi tema para palestra do pesquisador da USP, Jorge Felix, em iniciativa do Conselho Regional de Desenvolvimento da Serra (Corede Serra) em parceria com a Universidade de Caxias do Sul, no dia 02 de outubro. Felix é especialista em envelhecimento populacional e economia da longevidade, comentarista do Jornal da Cultura, da TV Cultura, e autor dos livros "Economia da Longevidade" e "A (difícil) decisão de envelhecer".

A partir do tema "Mercado de trabalho e envelhecimento", Felix analisou uma série de fatores que precisam ser considerados pelo poder público e pela sociedade em geral. Um dos primeiros pontos diz respeito ao idoso como gerador de riqueza. Segundo ele, grandes empresas multinacionais já dominam em vários países os mercados de medicamentos e alimentos, dentre outros produtos, para idosos. "O Brasil também pode gerar economia a partir do envelhecimento, como outras nações já fazem, casos do Reino Unido, da França e da China. A economia da longevidade virou política macroeconômica de governo nestes países", comentou. O pesquisador destacou que o momento atual convive com quatro transições que se cruzam: a climática, a tecnológica, a demográfica e a epidemiológica, que influenciam a população idosa.

Outra análise do pesquisador é sobre a fragilização da segunda metade da carreira. Frisa que é comum o trabalhador evoluir até o platô em determinada idade, quando se inicia a nova fase. Destaca que, no passado, o platô era de 55 anos, mas que vem reduzindo nos últimos anos. "A empresa alega que fica caro e demite. Cai por terra, assim, o argumento da empresa de que precisa da experiência. O ex-empregado busca outras soluções dependendo de sua qualificação ou necessidade. Em muitos casos, há o comprometimento da identidade da pessoa, gerando problemas psicológicos imensos", alertou.

Como alternativa de proteção, o pesquisador defende medidas legais na forma de sanções ou incentivos para obrigar as empresas a manter ou contratar idosos. "Sem isto, elas não absorverão o número de idosos disponíveis", definiu. Também propõe que haja um mecanismo de controle destas contratações para medir se a empresa está absorvendo em quantidade desejável este público. "O padrão deve espelhar as pirâmides demográfica e a etária. O Brasil tem, atualmente, 17% de população idosa. Portanto, uma empresa de abrangência nacional precisa ter 17% de idosos no seu quadro", exemplificou.

O pesquisador defendeu ações que incentivem o idoso a seguir estudando para se preparar à atual realidade. Frisou que é preciso conscientizar este público de que a sua vida tende a ser mais longa da que foi a de seus antepassados e, portanto, a atividade laboral também pode ser igual. "O trabalho faz parte da identificação profissional, existe uma cesta de possibilidades para seguir no mercado de trabalho", reforçou. Alertou que a formação profissional das novas gerações terá de ser diferente do padrão do século XX. "Isto ainda não foi percebido, mas ela terá de servir uma sociedade envelhecida", ponderou.

O pesquisador ainda analisou a importância do fluxo migratório, que encontra resistência em regiões do Brasil. Comentou que o único fator que pode mitigar a falta de pessoas para cuidar os idosos é a imigração. "Um dos setores que mais tem sofrido no mundo é o do cuidado. Na Europa, quem sustenta a economia é a imigração que cuida das pessoas idosas e crianças. São pessoas ilegais, mantidas escondidas nos lares para cuidar destes públicos, enquanto pai e mãe saem para o trabalho", destacou. Felix alertou que o Rio Grande do Sul precisará desta mão de obra, pois a população está envelhecendo mais rápido que a média nacional.

 

Política pública assegura cuidados a idosos e crianças

Um dos maiores desafios será suprir a falta de pessoas para cuidar dos idosos. O pesquisador ressaltou que está em fase de implementação no Brasil uma política pública para o cuidado em domicílio por meio da Lei nº 15.069/2024, que instituiu o Plano Nacional de Cuidados.  "Vários países já comprovaram que esta é a política de melhor custo-benefício para redução da desigualdade social", enfatizou. O pesquisador comentou que a lei é a primeira que reconhece o cuidado como trabalho, razão para que ocorram muitas mudanças assim que for efetivamente implementada.

A lei estabelece o que é cuidado e os públicos atingidos, idosos e crianças, garantindo proteção às cuidadoras. Explica que é necessário o Município aderir ao plano para que a União repasse parte dos valores para custear o serviço. A adesão não é obrigatória e, até o momento, 2 mil prefeitos manifestaram intenção de participar. "A adesão voluntária será um entrave e pode comprometer a amplitude que o programa precisa", reconhece Felix. Para ele, o programa vai redesenhar o cuidado nas camadas populacionais da periferia, onde funcionam creches informais para que mulheres deixem seus filhos enquanto trabalham nas áreas centrais, a maioria como diaristas.

De acordo com o IBGE, a camada da população com mais idade subiu de 11,3% para 16,6% entre 2012 e 2025, ao passo que a fatia jovem, com menos de 30 anos, caiu de 49,9% para 41,4% no mesmo período. O Sul, ao lado do Sudeste, lidera o número de idosos no país, com 18,1% da população.

 

Previdência passará por novas discussões a partir de 2027

 

Jorge Felix ainda faz um paralelo entre as reformas da Previdência e do Trabalho, que andam em direções opostas, criando dificuldades para o mercado de trabalho das pessoas de mais idade. Enquanto a reforma da Previdência aumenta a idade para a aposentadoria, a trabalhista desregulamenta as relações. "Como alguém vai se aposentar mais tarde se uma lei estimula o empregador a demitir mais cedo? É um grande desafio macroeconômico, incompatível com a sociedade superenvelhecida", definiu.

Felix defende a adoção de modelos em uso em outros países, como a aposentadoria flexível, com redução da carga horária semanal, e o trabalho voluntário do aposentado para o Estado. O pesquisador também alertou que o debate sobre o aumento da idade para se aposentar retornará no próximo ano, independentemente de governo. "Seguirão culpando o envelhecimento como causa da crise da Previdência", criticou.

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